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[ Publicado no Caderno Dois - A Gazeta – 04 janeiro de 1990 ] Anos 80 – Artes Plásticas No Caminho da Erudição Nenna Enfim, cosmopolita. Esse é o caminho inevitável que a arte produzida no Espírito Santo deverá seguir nesta nova década. O fluxo de informação universal, tremendamente facilitado pela tecnologia – mesmo que o país continue paupérrimo-, fará com que essa tendência já identificável no final dos anos 80 se intensifique nas mãos e mentes dos novos artistas que deverão surgir e na continuidade do trabalho de um número já importante que atua em sintonia com o que se faz em Nova Iorque ou Nova Déli. Não que isto signifique o fim das pinturas consideradas “acadêmicas”. É lógico que elas continuarão a existir, porque, mesmo superficialmente parecendo ultrapassadas, são expressões de criatividade. A existência de antenas parabólicas sendo vendidas a 400 dólares (no Japão), pouco maiores do que um prato comum, o fax proliferando velozmente e a informática já estabilizada, vão facilitar enormemente a troca de experiências entre os povos deste pequeno planeta, desta aldeia global macluhaniana. Então, mesmo – e principalmente – mantendo características regionais essenciais, como cultura, meio ambiente, política, etc..., o capixaba estará se comunicando numa linguagem universal, que não será necessariamente de alta tecnologia. Ao contrário, a tecnologia servirá para essa integração, mas a pintura e outras formas artesanais de construção de obras de arte serão muito importantes nessa inter relação tecnologia/arte, e na reflexão sobre o homem e o universo. FUNDAÇÃO KRAJCBERG O grande destaque da década de 80 não foi nenhuma exposição, mas sim o fato do escultor Franz Krajcberg, artista reconhecido internacionalmente como um dos grandes inventores dentro da arte universal, ter desejado doar todo o seu acervo ao povo do Espírito Santo. Estaria incluído nesta doação até mesmo o belíssimo atelier que o escultor possui em Nova Viçosa. Aquele que tem uma casa em cima da árvore. E, pasmem, uma invejável coleção de trabalhos de outros artistas com os quais conviveu, que inclui, entre outros, Chagall, Braque, Klee, etc. A finalidade da doação seria criar um espaço dinâmico de convivência artística, envolvendo exposições, cursos, bibliotecas, salas de projeção de cinema e vídeo, auditório, etc. Só o nome de Krajcberg viabilizaria – com ajuda internacional – a construção e manutenção desse importantíssimo empreendimento. Também alguns dos principais artistas brasileiros, amigos do escultor, já se comprometeram a doar obras para a fundação. São pérolas e dólares... para um projeto que tem como base filosófica fazer uma ponte entre a arte e a natureza, característica essencial da obra de Krajcberg, e um belo símbolo para um estado que teve sua natureza arrasada. Apesar dos entendimentos estarem se arrastando lentamente, existe algum progresso. A déia está sendo discutida mais seriamente entre o prefeito de Vitória e o próprio escultor. Quando perguntado sobre o motivo do gesto, Krajcberg respondeu que Vitória só tem progresso industrial e de poluição, mas que a cultura estava relegada a um último plano. Citou ainda o fato de que, se algum talento local quiser se desenvolver, tem que ir para um centro maior. E terminou: “Eu não quero ser apenas famoso, quero ser útil”. OS NOVOS “Uma juventude com força e discussão está saindo para as ruas. (...) Os anos 80 serão dos jovens”. Essa foi a previsão feita pelo crítico Carlos Chenier, no início da década que termina, em A Gazeta. E assim foi. Tivemos uma renovação consistente no ambiente das artes locais, com o surgimento de diversos novos valores, que ocuparam um espaço importante. Eles estão construindo uma obra sintonizada com a arte produzida nos grandes centros mundiais, porém sem perder as características regionais que possibilitaram a sua execução. Já estão prontos para circular fora dos limites do estado. Entre eles, destacamos Lando, Hélio Coelho, Zuppo, Antônio Aristides, Celso Adolfo, Mônica Debanée, Lincoln, Norton, Mara Perpétuo e Simone Monteiro. USINA Um flash de maturidade empresarial no campo das artes foi o funcionamento da Usina de Arte, uma galeria dirigida pelo marchand Márcio Espíndula, que colocou o Espírito Santo em igualdade com os primeiros centros de comercialização no Brasil. Foi uma preciosa oportunidade que os artistas locais e espectadores tiveram para ver obras que, de outra forma, dificilmente seriam mostradas em Vitória. Foi um desfile de alguns dos mais importantes e inovadores artistas contemporâneos em atividade no Brasil: Loio Pérsio, Iberê Camargo, Franz Krajcberg, Fajardo, Franz Weissman, Hilton Berredo, Jorge Guinle Filho, Leonilson... além dos capixabas Hilal Sami Hilal e César Cola. Uma pena que tenha fechado. BALÃO Questionamento, com forte tempero anarquista, foi a base de atuação do grupo Balão Mágico, ativo principalmente na Universidade Federal do Espírito Santo. Mantiveram uma discussão polêmica e conflitiva em relação à decadência, obsoletismo e conformismo do ensino praticado naquela universidade. Questionou também a própria “arte” e sua relação com a vida, tentando superar arcaicos limites de nossa arte provinciana. Foi um fator grupal, de energia jovem e sintonizado com o comportamento que se verificava em diversas partes do mundo, porém, em alguns momentos, chegou a ser mais envenenado e suicida que o comercialismo da transvanguarda e das quase reacionárias teses do pós-modernismo. FESTIVAL DE VERÃO O Festival de Verão de Nova Almeida colocou o Espírito Santo no calendário nacional de festivais de arte, despertando interesse em artistas e estudantes de outros estados. O primeiro aconteceu em janeiro de 89 e foi uma rara oportunidade de artistas e estudantes locais trocarem experiências com pessoas de outros lugares e artistas que realizam trabalhos já conceituados dentro da arte brasileira, como é o caso de Iole de Freitas e Fajardo. Com eventos diversos e oficinas práticas, foi uma grande festa motivada pelo interesse no fazer criativo. Esperamos vida longa para esse festival anual. FOTOGRAFIAS A movimentação na área da fotografia foi muito grande durante toda a década, com a realização de diversas exposições. O primeiro grande destaque aconteceu em 1980 na Galeria Homero Massena, com a mostra de trabalhos de Pedro Fonseca. Nascido em Minas, mas tendo vivido e realizado o principal de sua obra no Espírito Santo, Fonseca (já falecido) continua insuperável em seu domínio de luz e criatividade nos enquadramentos. Registrou, com esmero técnico e sensibilidade, aspectos da cultura, paisagem, arquitetura e do povo capixaba. Sem dúvida, é ainda o nosso maior fotógrafo. Mais recentemente, destacamos a impecável exposição de Sebastião Salgado, da agência Magnum, que ocupou a Galeria de Arte e Pesquisa da Ufes e o Espaço Universitário. Unindo técnica e conteúdo ultradramático , enfocando a miséria de forma quase onírica, mas não dispersiva, Salgado “exagerou”. Tivemos também a exposição do capixaba Humberto Capai, registrando com competência aspectos capixabas. E ainda, a mostra de fotos publicitárias do requintado Sagrilo. EXPOSIÇÕES Destacar exposições em um década num espaço restrito, é perigoso e, certamente, alguma injustiça será cometida. Mas foi um período de desenvolvimento quantitativo e qualitativo. No início da década o cachoeirense Paulo Herkenhoff, hoje diretor do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, balançou a província com duas exposições radicais. Em uma delas, ele forrou todo o piso da Galeria Homero Massena com jornais, ao mesmo tempo em que mostrava desenhos construtivos realizados a partir das tarjas negras colocadas nos olhos dos menores infratores, quando publicadas em jornal. Tivemos também a presença constante do pintor Loio Pérsio, sem dúvida um dos grandes mestres da pintura nacional. A mostra “Pinturas... e o que pintar” foi outro destaque, reunindo talentos como Lando, Zuppo, Patrícia Vivacqua, Sáskia Sá, Telma Guimarães, numa exposição muito importante e festiva. Outra mostra importante, e curiosa, foi a de alguns desenhos de Ivan Serpa realizados em Vitória, e que foram exibidos na biblioteca da Ufes. Hilal Sami Hilal, Regina Chulan, Vilar, Ivanilde Brunow, Ronaldo Barbosa, Ely Vicentini, Jeveaux, Dilma Batalha, Heidi Lieberman, Kleber Glavêas, Neusa Mendes, Dan Mendonça, Penithência, Molga, Celina Rodrigues, Wanda Moraes, João Carneiro da Cunha, Mac, Joyce Brandão, Atílio Colnago... em individuais ou coletivas, com diferentes níveis de qualidade, foram artistas que mantiveram a arte local viva e ativa. Vamos aos noventa. |