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1970/2010 |
OBRAS E CONCEITOS |
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A GAZETA 25 de janeiro de 1976 Os textos foram digitados sem qualquer correção ortográfica ou de conteúdo. Comentários posteriores e correções estão assinaladas em vermelho. |
texto Jairo de Britto | ATILIO GOMES (no MAM) Encerrados os trabalhos de seleção dos artistas a serem convidados para participar da mostra Arte Agora I / Brasil 70-75, que será inaugurada no próximo dia 11 de março no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, numa promoção do Jornal do Brasil, Light e MAM, - surge o nome de Atílio Gomes Ferreira como único escolhido para representar o Espírito Santo nessa importante retrospectiva de âmbito nacional. Quando divulgou a notícia em primeira mão no Jornal do Brasil, o crítico Roberto Pontual – que esteve em Vitória examinando a bem intencionada (?) mas paupérrima produção local – chamou atenção para alguns itens que nortearam os processos, critérios e métodos que determinaram a escolha dos artistas convidados a exporem seus trabalhos no MAM. 1) O resultado final é de responsabilidade coletiva da Comissão (composta por Aline Figueiredo, João Câmara Filho, Marcio Sampaio, Olívio Tavares de Araújo e pelo próprio Roberto Pontual), em trabalho colegiado, e não uma somatória de indicações avulsas de cada um de seus membros. Para essa decisão colegiada foram examinados e computados os diversos dados disponíveis, tais como documentação curricular, o conhecimento direto das obras dos diversos artistas por parte da Comissão e a informação suplementar prestada por cada um deles aos demais. 2) Fixou-se como parâmetro único de julgamento um critério de validade, atualidade e qualidade nacionais, não sendo admitidos níveis, normas ou exigências variáveis e adaptáveis às diversas regiões do país. Por outro lado, não houve tampouco, a intenção de representar preferencialmente quaisquer regiões, e os resultados refletem, portanto, os diferentes níveis de desenvolvimento também artísticos que se verifica em cada uma delas. 3) Por consenso geral, evitou-se a indicação de artistas oriundos ou apenas relacionados a uma área de criatividade espontânea ou de fundamentos populares. A nosso ver, o trabalho deles, por sua própria natureza, não se prende a qualquer período ou época definidos de tempo. É indispensável ter plena consciência dos critérios adotados pela Comissão para que, mais uma vez, coloquemos as cartas na mesa e reavaliemos não somente o trabalho de Atílio mas toda a produção dos poucos artistas plásticos da região. Baseado nos preceitos acima, seria quase que impossível ter recaído a escolha da Comissão sobre outro nome. Atílio, que se repita, é o mais importante artista plástico do Espírito Santo. Nenhum outro conseguiu (até agora) assimilar tendências as mais variadas e apresentar um trabalho tão original e contemporâneo, que por si (como foi o caso de sua gravura Triste Trópico) extrapola e transcende tais tendências. A arte contemporânea, tal como acontece nos grandes centros, não pode e não deve ser subestimada pelo artista da pequena cidade. Importa que ele se familiarize com tais tendências e realizações e saiba juntá-las ao que lhe é familiar e próximo geograficamente, resultando daí uma proposta/obra em condições de potencial universalidade. Atílio faz exatamente isso, consciente e deliberadamente. Assumindo essa atitude – que é o aspecto vital de sua atividade artística – vê-se exposto às críticas comuns: alienado, abstrato, americanizado... Tudo ao nível da mais ingênua crítica provinciana. O que interessa a Atílio é o contemporâneo – aconteça em Conceição da Barra, Nova Iorque, Paris ou Timbau (Praia de Mossoró, Rio Grande do Norte)... Não lhe cabe rótulos ou especificações técnicas definitivas. Neste últimos sete anos, sua atividade na pequena comunidade da Grande Vitória tem sido de notável importância. Tem sido definitiva no campo da realização artística, no sentido de ser o principal catalisador das diversas correntes e, acima de tudo, ter assumido (com todos os danos e perdas que aí venham implícitos), sua condição de artista: Atílio não é professor de Belas Artes. Não é estudante de Belas Artes. Não tem nada a ver com a Escola tal como ela se apresenta (ou representa?), embora tenha gasto ali um pouco do seu tempo., há alguns poucos anos. Sua arte baseia-se num exercício continuo e inquietante de liberdade. Impossível separá-la do homem que trabalha na Fundação Cultural, apanha conchas nas praias das ilhas próximas, fotografa o lixo de Nova Iorque, coleciona as garrafas de areia de Timbau, peças do artesanato de Antonio Rosa, trabalhos de artistas contemporâneos, passeia pelas praças da cidade ou expõe gravuras no TCG. “É necessário e urgente, nessa capital, algo que se possa realmente identificar como uma galeria de arte. Um museu fica pra depois”, diz o artista, que não enverga afetação ao afirmar que “90% da arte brasileira contemporânea são porcarias”... Ele questiona sempre. Aí reside grande parte da importância de seu trabalho quando considerado como obra-de-arte. Num ensaio particularmente brilhante, Leon Trotsky lembrava que “o que serve de ponte entre uma alma e outra não é o particular mas o comum. É só por intermédio do comum que o particular é conhecido. As condições mais profundas e mais duráveis, que modelam a alma do homem, as condições sociais de educação, de existência, de trabalho e de associação, determinam o que há de comum entre o poeta e o leitor”. Cabem duas simples adaptações: entre o artista plástico e o espectador. E a individualidade do artista Atílio encontra-se hoje, mais do que nunca, cheia de elementos do tempo presente: a terra agora / as atribuições de agora / o homem daqui, dali e d’agora. Um exemplo da dinâmica atuação de Atílio no contexto social que lhe diz respeito – e que considero até agora insuperável – foi a construção do Estilingue Gigante, um happening, à sua maneira, acontecido em 1969, documentado pela câmara de Sagrilo e com música de Marcos Morais ao violino, madrugada afora engessando a árvore (declaração no bolso!) insinuando um caminho, uma abertura para nossa arte até hoje tão comportada, tão monótona e sem dúvida alguma acintosamente dispensável. Outro exemplo: um projeto anotado em 1970 até hoje não realizado. Alugar out-doors, talvez vinte, por um período de uma semana, no centro da cidade, e confiá-los a vários artistas convidados para que utilizem o espaço com seus trabalhos. Atílio acredita que “esta seria, possivelmente, a primeira vez que se usa out-door como veículo para uma mostra de trabalhos não publicitários, em todo o mundo”. Isso bem pode ser questionado. Mas não usa tese básica: “Devido não somente ao ineditismo do projeto, mas também ao valor de suas mensagens e sua preocupação totalmente ecológica e social, deverá ter uma repercussão em termos nacionais, criando um clima de interesse local nas artes e possível valorização do artista”. Alguma dúvida? Na segunda quinzena de março próximo, paralelas à mostra Arte Agora no MAM, Atílio promoverá duas exposições em galerias cariocas. Tudo explorando o tema Arte Agora. No Museu de Arte Moderna Atílio pretende trabalhar com grandes placas de vidro, além de um tape curto que pretende questionar a própria exposição, que Atílio também reconhece como importante iniciativa. Nesse primeiro semestre de 1976 Atílio já se vê envolvido com inúmeros e importantes projetos artístico-culturais – importantes para ele como artista, para o espectador/participante e para o Espírito Santo. Desde o Estilingue – passando pelo carimbo, pela folha impress (Ar-te) pelo tape/lixo no Central Park, pela gravura Triste Trópico, pelas séries de belíssimos slides completamente desconhecidos – Atílio nunca decepciona; está sempre disposto a começar tudo outra vez, a revolver, como diria o Walter Franco. imprimir | |