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1970/2010 |
OBRAS E CONCEITOS |
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A TRIBUNA 08 de outubro de 1975
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texto Tinoco dos Anjos Na área das artes, Vitória conta com músicos, cantores, compositores, atores de teatro, escritores e poetas, e a todos deu chance de mostrar seus trabalhos, em festivais ou em espetáculos isolados no Teatro Carlos Gomes. Nas artes plásticas, porém, Vitória está devendo o reconhecimento de seus artistas, que sobrevivem incompreendidos e desprezados por falta de uma informação atualizada no campo. Entre os nossos poucos artistas plásticos, destaca-se Atílio Gomes, capixaba, 24 anos, que na semana passada encerrou sua exposição “Triste Trópico” no Carlos Gomes, com duração de 11 dias e visita de mais de 300 pessoas. Pela primeira vez, vendeu 11 quadros. Em geral as exposições são visitadas, mas é comum o comentário sucinto: “Não entendi!” Atílio acha que essa reação, que já vem de alguns anos, é o resultado da falta de informação atualizada sobre artes plásticas e da ausência de promoções que aumente o interesse pelo ramo e ampliem a capacidade de percepção do público. | ATILIO GOMES “Como explicar que certas coisas não se explicam?” O artista plástico de Vitória não tem reconhecimento, ao contrário do músico ou do autor de teatro, porque o público permanece distante do seu trabalho, como algo impossível de ser entendido e desmerecedor de atenção. No caso de Atílio Gomes, ele também explica que “a maior dificuldade que as pessoas têm é me localizar em termos de escolas e influências. Creio, sinceramente, que é pela originalidade dos meus trabalhos”. Como um artista jovem e em pleno desenvolvimento de seu trabalho, Atílio não aceita fazer concessões para buscar o aplauso gratuito. Sabe a fórmula para fazer sucesso, sabe que, se fosse desenhar ou pintar simplesmente, agradaria mais e chegaria mais próximo do público, mas se recusa e prossegue trabalhando, apesar de todo desestímulo. Atílio Gomes estudou dois anos de artes plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo, e começou desenhando, aos 7 anos, o Convento da Penha, gravura que repetiu até saber de olhos fechados. Da Ufes, saiu na metade do curso, acreditando que o ensino de lá “serve para determinadas pessoas” e afirmando mais: “A escola não havia acompanhado a evolução do tempo. O surrealismo ainda assustava e era considerado muito avançado”. Com esse pensamento e sabendo que “nenhuma escola pode fazer um artista”, resolveu continuar o aprendizado sozinho. A primeira individual aconteceu, por volta de 1971, na Aliança Francesa, chamada “Imagens Fotográficas”. A estréia era audaciosa: o principal da exposição eram fotos do próprio corpo nu do autor, desfocadas com iluminação vermelho e verde. Muita gente foi ver. No entanto, o trabalho que chamaria mais atenção seria feito a seguir: o estilingue da Praia do Canto. Utilizando uma árvore e ajudado por amigos, armou com cores e efeitos plásticos um enorme estilingue, trabalhando durante uma madrugada quase inteira. No dia seguinte, teve o prazer de observar que o estilingue fazia sucesso e atraia quem passava: os carros paravam, as crianças brincavam com a armação e os jornais retratavam o acontecimento. O estilingue ficou por 2 dias em exibição, até que foi perdendo partes e acabou por completo. Atílio foi então para o Rio de Janeiro, mas para se divertir, não para tentar sucesso ou coisa parecida. Aí surgiu no “O Pasquim”, na época um jornal que batia recordes de vendagem, uma dica sobre o estilingue, com elogios assinados por Luiz Carlos Maciel, jornalista especializado em arte de vanguarda e respeitadíssimo em seu campo. Apareceram várias possibilidades para Atílio devido a essa nota, inclusive convites para que voltasse a Vitória. Ele relembra: “Eu estava no Rio, mas nunca fui de procurar ninguém. Depois da dica do Maciel apareceu chance de expor no MAM e muitos capixabas se interessaram, mas não dei conversa. Estavam querendo me reconhecer só por causa da dica do jornal”. Resolveu ficar parado e isso aconteceu durante seis meses. “Nesse período, tive uma da maiores idéias de minha vida, em termos de transmitir arte: usar o “out-door” como um meio para transmitir uma mensagem relacionada com arte. A mostra seria ao ar livre e, em vez de a pessoa olhar para uma lata de óleo de cozinha num imenso “out-door”, veria obras de arte. Por exemplo, na Beira-Mar, seriam utilizados aqueles “out-doors” comerciais que estão lá. Guardo essa idéia até hoje e espero conseguir armar uma estrutura financeira, porque para isso é necessário muito dinheiro”. Desistindo de aceitar os convites capixabas para voltar ou expor no Rio, Atílio uniu-se a Luiz Carlos Maciel para formar um grupo de vídeo-tape, a fim de expor todos os recursos desse novo meio de comunicação. Atílio, segundo afirma, foi a primeira pessoa no Brasil a falar no vídeo-tape como meio de desenvolver uma arte mais social e imediata. Entusiasmado explica que o vídeo-tape pode filmar e gravar sem necessidade de laboratórios e fora do controle, da censura oficial, podendo ser utilizado na gravação de depoimentos populares, na filmagem de acontecimentos cotidianos reais, etc. É um aparelho independente e livre. O entusiasmo era grande para o novo projeto, mas faltava dinheiro para comprar o equipamento. Então a edição brasileira do jornal “Roling Stone” publicou um artigo de Atílio (sem autorização) sobre o vídeo-tape, despertando a atenção de uma pessoa, que rapidamente foi aos Estados Unidos e comprou todo o material necessário. E colocou um anúncio num jornal procurando Atílio. Houve o encontro, mas os dois não se entenderam porque o que pensavam sobre a mesmo coisa não coincidia. Atílio deixou o Rio e retornou a Vitória. Surgiu a idéia de uma mostra coletiva – ele, Sagrillo, Luisah e Luiz Carlos Calmon – que acabou se chamando “Duvideodó”, e sendo realizada no Teatro Carlos Gomes apenas com a participação local, porque Atílio havia pensado numa divulgação maior das artes plásticas capixabas. Havia procurado Euzi Moraes, na época diretora da Fundação Cultural, e propondo que se convidasse um crítico de artes plásticas e um “marchand” do Rio ou São Paulo, que viriam como convidados especiais da Fundação e proporcionariam, cada um em sua área, maior divulgação para a mostra e o trabalho dos artistas capixabas. O “marchand”, inclusive, poderia convidar alguém para expor em sua galeria. Mas a Fundação não aceitou a sugestão e como resposta, segundo recorda Atílio, Euzi fez uma pergunta muito ingênua: “Por que vocês não hospedam os convidados em suas casas?” Diante disso, Atílio diz que ficou desanimado, perdeu o estímulo e se limitou a participar da exposição, organizada por Sagrillo e Luisah. Essa falta de incentivo resultaria, para Atílio, na realização da “Última Exposição”, um calmo protesto à ausência de reconhecimento (“que não significa gostar”, explica) por parte de quase todos. Lembrando essa época, ele afirma: “Só um reduzido número de pessoas consegue assimilar o trabalho que eu faço. Estou cansado de ouvir “não entendi!” Como vou explicar certas pessoas que têm coisas que não se explicam? Acho que falta informação atualizada”. Bem, a “Última Exposição” não foi exatamente a última, porque depois dela, viria “Triste Trópico”. Mas de 1972 a este ano, Atílio fez duas viagens que considera muito importante para ampliar a visão de seu trabalho. Foi a Nova Iorque, por curiosidade, ficando na casa de Hélio Oiticica, uma das pessoas mais importantes nas artes plásticas do Brasil. Na cidade norte-americana, Atílio passou a curiosidade à saudade. “Comecei a ter o sentido de trópico, a noção do verdadeiro exótico do trópico, da sua realidade, completamente diferente da realidade nova-iorquina, pensei então que desejava desenvolver uma coisa que, mesmo sendo universal, tivesse características de trópico, de envolvimento da região brasileira”. Com essa descoberta, estava nascendo a exposição encerrada semana passada no Carlos Gomes. “Em Nova Iorque, fiquei dois meses e pouco, mas não me interessei em conhecer ninguém, nem ir a museus. Apenas vi em lojas originais de Andy Warhol, John Cage. Tive encontros marcados para conhecer João Gilberto, Allen Ginsberg, etc. Gente muito fina. Simplesmente não fui. Não tinha nada a conversar com eles”. De volta ao Brasil, Atílio viajou ao Nordeste, com amigos, seguindo o litoral até o Maranhão, conhecendo e vivendo o sertão brasileiro, que “tem misérias, mas não tão novelescas”. Com “Triste Trópico”, que pode ser interpretado como resultado dessas duas viagens e a descoberta do trópico, Atílio simplifica, dizendo que “foi mais uma tentativa de mostrar alguma coisa. Não existe simbolismo. Você sente que é uma coisa melancólica. A repetição das gravuras, entre vários outros motivos, foi feita para obrigar as pessoas a parar para ver um quadro, o que não acontece quando se oferece muitas alternativas. Acredito que poucas pessoas tenham realmente gostado da exposição. Houve até o caso de uma menina que me encontrou na escada e falou: “Você poderia fazer coisas muito melhores, há tantas coisas bonitas para se fazer, por que fazer isso?...” Eu pedi para ela me mostrar as coisa bonitas que dá próxima vez eu faria...” Atílio continua: “Arte visual em Vitória está restrita a um relacionamento passivo entre quadro e espectador. Não há estudos críticos, é uma coisa muito estéril. Provavelmente só irão reconhecer meu trabalho aqui quando eu for reconhecido em São Paulo, ou Rio, ou Paris, sei lá. A melhor coisa que poderiam fazer em Vitória seria uma exposição de Portinari, para as pessoas terem contato com bons trabalhos”. Termina citando uma preferência e dois nome consagrados: “O mais importante artista plástico de Vitória é Hilal Sami Hilal. De Picasso: Arte não se entende. Sente-se. De Andy Warho: Tudo o que eu quero dizer está na superfície dos meus quadros. Por trás não tem nada”. E ainda: “Entrevista é muito perigoso. Quase sempre se fala de coisas sem muita importância, e se esquece o principal”. imprimir | |